A trajetória de um campeão

luiz_manara_fora_da_mira
Era impossível conter a emoção. A corrida e o salto em direção ao seu treinador culminaram em um abraço apertado que transmitia a mais sincera felicidade e a satisfação pelo dever cumprido. Foi assim que Luiz Filipe Guarnieri Manara comemorou o seu último ponto na final individual do tênis de mesa (classe 8) no Parapan-Americano de Toronto do Canadá (2015).

A vitória por 3 sets a 1 contra o americano Chui Lim Ming garantiu muito mais do que o título de campeão a um estreante em pan-americanos. Permitiu que Luiz Filipe participasse de sua primeira Paralimpíadas aos 24 anos. A presença nos jogos Rio 2016 foi fruto de uma longa rotina de desafios, treinamentos e competições, mas também teve um toque especial do destino.

O tênis de mesa entrou na vida de Filipe aos oito anos. O esporte foi indicado como um meio de fisioterapia após uma cirurgia realizada por ele no Hospital SARAH, em Brasília. Luiz nasceu com hemiplegia, uma forma de paralisia cerebral que compromete, de forma moderada, o desenvolvimento físico e motor dos membros inferiores e superiores do lado direito do corpo.

“Foi o tênis de mesa que me escolheu e não eu que o escolhi. Sempre gostei de esportes em geral e pratiquei os mais diversos, já que a minha deficiência nunca me limitou. Porém, quando comecei a praticar o tênis de mesa, foi amor à primeira vista”, diz Manara.

A paixão começou a ficar mais séria e, sete anos depois, uma competição deu início ao que podemos chamar de um casamento feliz. Durante a Copa Brasil Sul/Sudeste de 2008, uma das etapas do então Circuito Nacional de Tênis de Mesa, o jovem mesa-tenista “sentiu o baque”. Toda a infraestrutura, a presença de atletas de renome nacional e a importância do evento mostraram a Luiz o que viria dali para frente. O 2° lugar na disputa da classe 8 marcou o nascimento da sua carreira.

A partir dali, mesmo com apenas 15 anos, ele percebeu que poderia levar o esporte mais a sério. A rotina de treinamentos e campeonatos continuou como seu grande foco até janeiro de 2010, quando deu início ao curso de Jornalismo no Mackenzie, custeado por uma bolsa de estudos da faculdade para atletas.

De lá até o final de 2013, quando concluiu a graduação para se tornar também jornalista, ele tomou uma decisão importante: tratar o tênis de mesa como uma profissão. O fato do Rio de Janeiro ser a sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos também facilitou a decisão, pois o investimento feito pelo Governo foi maior e possibilitou que Luiz Filipe e outros atletas pudessem se dedicar 100% ao treinamentos.

A rotina de treinos com a Seleção Permanente, montada pela Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM), era puxada e ocupava até seis dias por semana. Em cada dia de atividades eram feitos: fisioterapia (uma hora), treinamentos técnicos (cinco horas divididas em dois períodos) e treino físico (uma hora). Também aconteciam consultas semanais com psicólogo e nutricionista (uma hora cada).

luiz_manara_fora_da_mira_3
O apoio e a torcida do irmão Luiz Carlos Júnior, da mãe Eliana e do pai Luiz Carlos ajudaram o atleta durante o Parapan-Americano de Toronto

Além da medalha de ouro na disputa individual da classe 8, Luiz também foi campeão por equipes (classes 6-8) no Parapan-Americano de Toronto (2015). Ele já foi bicampeão paulista, tetracampeão brasileiro, eleito três vezes como o Melhor Atleta da temporada pelo Ranking Nacional e campeão dos Jogos Para-Sulamericanos de Santiago (Chile/2014). Atual 23° do ranking mundial na Classe 8, ele também é medalhista em diversas etapas do Circuito Mundial Paralímpico como Argentina, Costa Rica, Eslováquia, Estados Unidos e França.

Confira abaixo uma entrevista com Luiz Filipe Guarnieri Manara:

Qual o apoio que um atleta paralímpico recebe?
O apoio por parte da iniciativa privada ainda é pequeno e muitos atletas dependem de bolsas de incentivos financiadas pelo Governo Federal e de projetos esportivos ligados ao Ministério do Esporte. Claro que alguns conseguem cifras maiores, mas para a maioria dos atletas, mesmo com Paralimpíada no currículo, o apoio ainda é pouco.

Qual foi a sensação de chegar ao Pan e conquistar duas medalhas de ouro?
O ParaPan foi com certeza a maior competição da minha vida. É fato que cheguei como o primeiro cabeça-de-chave na minha categoria e, teoricamente, era o favorito. Mas esse favoritismo não vale de nada em uma competição desse porte, ainda mais valendo uma vaga direta para uma Paralimpíada.  O fato de meus pais estarem presentes me ajudou muito nos momentos de dificuldade, assim como valorizou ainda mais as minhas conquistas.

No que você pensou quando ganhou as duas medalhas de ouro?
Aquela história de passar um filme na cabeça enquanto você escuta o hino nacional no pódio é a mais pura verdade. Não tem nada de clichê. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.

E disputar as Olimpíadas? É o grande sonho de muitos atletas…
Mais do que dinheiro e sucesso, acredito que o que move grande parte dos atletas é o sonho de disputar uma Olimpíada/Paralimpíada. É o maior evento do esporte e não há nada melhor do que representar o Brasil em uma competição como essa. Me sinto muito feliz em ter vivido esse momento, ainda mais em meu país. A torcida apoiando durante o jogo, gritando seu nome e até mesmo reconhecendo o seu esforço e dedicação mesmo após uma derrota sempre ficarão guardados em minha memória com carinho.

O que você aprendeu com a sua participação na Rio 2016?
Acredito que a preparação e a dedicação foram as melhores possíveis. Foram quase três anos trabalhados com foco nesse objetivo. Tanto pelo resultado da equipe como um todo, com 1 prata e 3 bronzes, assim como pelo desempenho de todos os atletas independentemente da vitória ou derrota, mostra que o trabalho foi bem feito. É claro que poderia ter sido ainda melhor. Precisamos criar a cultura em nosso país que não se faz um campeão olímpico em apenas quatro anos. O investimento na base é de suma importância, assim como necessitamos que nossos atletas de ponta tenham as condições ideais de trabalho. Tendo isso, o Brasil será uma superpotência, pois é difícil encontrar atletas com tanta força de vontade como os daqui. Destaco ainda a necessidade de uma preparação psicológica primorosa, pois a grandiosidade do evento chega a assustar e pode atrapalhar o resultado final.

Após as Olimpíadas/Paralimpíadas, você acha que mudou alguma coisa em torno do esporte brasileiro? Houve algum legado?
Quanto ao legado estrutural cabe ao governo saber distribuir e organizar isso da melhor forma possível, algo que parece simples, mas se tratando de Brasil (…). No tênis de mesa me parece que essa distribuição de material vêm sendo feita com sabedoria, mas quanto a investimentos futuros, a situação é preocupante. Afinal, vivemos um momento de crise onde a palavra ‘crise’ é muitas vezes até usada como desculpa. Vejo um sério risco do Brasil retroceder no esporte, ao contrário do que fez o Reino Unido, que fez uma campanha melhor no Rio do que havia feito em Londres.

Você pretende continuar com o esporte de alto rendimento? Quais são os seus planos?
Pergunta difícil essa (risos). Não faço parte dos planos da equipe principal para o ciclo Tóquio 2020 por uma escolha da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). Então vou reduzir bastante a minha jornada de treinamentos e estou tentando minha recolocação no mercado de trabalho como jornalista. Porém, conforme o Parapan 2019 em Lima (Peru) for se aproximando posso intensificar os treinamentos e voltar a pensar em uma classificação para Tóquio. Querendo ou não, ainda sou o melhor atleta das Américas na minha categoria. É esperar pra ver. 

O que o tênis de mesa mudou na sua vida?
O tênis de mesa foi e sempre será muito importante na minha vida. É o esporte que mais amo. Começou como fisioterapia e me levou a uma Paralimpíada. Me possibilitou qualidade de vida, independência financeira por um período, intercâmbio cultural e, principalmente, conhecimento, como a Bolsa de Estudos que tive no Mackenzie. Por isso, essa incerteza do futuro e a ruptura, mesmo que parcial, me entristecem bastante. Sinto falta do treino diário, rotina de competições e tudo mais. Só não sinto falta da cobrança por resultados e da temida e exagerada pressão (risos).

Anúncios

E aí, o que achou? Dê a sua opinião no Fora da Mira!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s